A série Atypical e o que ela tem a nos dizer sobre negação e abandono

Imagem de divulgação da Netflix da série Atypical

Vamos continuar com a série Atypical? São muitas as questões que a série aborda sobre o mundo em torno do autismo. Mas como falamos no primeiro texto sobre a série (não viu ainda? Veja aqui) separamos três das principais reflexões que encontramos na série. Na primeira reflexão focamos na irmã de Sam, Casey e comentamos um pouco sobre questões relacionadas a irmãos de uma pessoa com deficiência. A segunda e que traremos nesse texto terá como alvo o pai do garoto e discutiremos um pouco sobre negação dos pais em relação à deficiência do filho.
Antes de começar, quero deixar claro que vamos usar a figura paterna no texto apenas para aproveitar o gancho da série, ok? Quero dividir esse texto em duas partes, vamos conversar um pouco sobre negação da deficiência e sobre afastamento de um dos genitores, o que na minha opinião está intimamente ligado.

Sobre negação…

A série traz com bastante clareza essa negação por parte do pai, mas também mostra essa transição do pai em aceitar mas também em aprender a se relacionar com o filho.
A aceitação caminhou de mãos dadas com o desenvolver uma relação melhor com o filho. O momento que na minha opinião marca essa transição é quando depois de um episódio na escola em que Sam ficou bastante chateado ele pede para conversar com o pai e não com a mãe e resposta do pai foi: “Jura?”. Ele não estava acostumado com isso, não era natural pra ele e essa escolha do menino foi um marco desse vínculo que eles estavam construindo. Mas antes disso o processo foi duro e árduo, e a cena que marca essa negação do pai em relação ao filho é quando a mãe descobre que ele nunca havia falado sobre o autismo com o colega de trabalho que ele trabalhava há alguns anos. A série mostra anteriormente que ele tinha conversas sobre sua vida pessoal e sua família com esse colega, quando conta, por exemplo, que sua filha está namorando. O fato de ele nunca ter ido ao grupo de apoio apesar da insistência da esposa também faz parte desse processo. A negação da deficiência por parte dos pais é algo comum e que muitas vezes prejudica o desenvolvimento da criança. Muitos se recusam a atender solicitações de encaminhamento a profissionais que vem por parte das escolas. Ou esconder dos amigos o diagnóstico do filho e é super compreensível essa questão, pois em um mundo do jeito que estamos vivendo hoje, a decisão de ter um filho é uma escolha bastante complexa e difícil. Quando se toma essa decisão cria-se um ideal de filho no imaginário dos pais e ter uma deficiência não faz parte desse imaginário. Por isso negar a existência de uma deficiência é algo comum. Fique tranquilo papai e mamãe, vocês não são os únicos, sabemos que a caminhada não é fácil, mas já está melhor do que há cinco anos atrás e mais ainda do que há dez e por aí vai. Há grupos nas redes sociais de pais que se apoiam, seja compartilhando uma experiencia pessoal seja na indicação de bons profissionais para se procurar. Acompanhamento com um psicólogo pode ajudar muito nessa questão.

Sobre o abandono…

Acredito que o abandono na maioria das vezes está relacionado com a negação. É muito comum o abandono do lar por parte de um dos pais, e apesar de parecer ser mais comum o abandono paterno, há muitos casos que é a mãe que abandona o lar. E há ainda casos que infelizmente ambos abandonam a criança e ela é criada por um terceiro ou enviada para abrigos. A série aborda um pouco dessa questão, o pai de Sam saiu de casa durante oito meses, isso aconteceu quando provavelmente o menino tinha quatro anos. A conversa de pai e filha no parque sobre esse assunto é algo bem marcante na série e traz algumas falas bastante significativas: “Foi difícil ter um filho que não sorria e eu ficava pensando que as coisas iam melhorar e que ele ia se desenvolver (…) E eu não conseguia aceitar e achei que estava estragando tudo e então fui embora.” Mostra exatamente a relação da negação com o abandono. No caso da série o pai volta ao lar e há depois de alguns anos a construção de um relacionamento saldável entre pai e filho, mas na vida real nem sempre é assim. São muitos os casos em que a mãe ou pai tem que assumir sozinhos o papel de responsável por essa criança, o que por vezes causa uma sobrecarga nessa pessoa. Sabemos que cuidar de uma pessoa com deficiência não é fácil, são muitas as terapias, compromissos e dependência e é por isso que próximo texto sobre a série abordaremos a questão da sobrecarga de cuidadores. No primeiro texto nossa personagem em questão foi a irmã, no segundo, focamos no pai e o terceiro e último texto sobre a série nossa personagem será a mãe de Sam. Continue conosco acompanhando nossos textos. Toda semana um texto diferente e que com certeza pode ser útil pra você ou pra alguém que você conheça.
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About Lídia Lopes

Inconformada com o preconceito e com uma educação não inclusiva tenta todos os dias fazer algo para que isso seja diferente. Mais que um valor moral, tornou isso sua profissão. Apaixonada por educação e inclusão. Sonha em viajar o mundo e num mundo que não seja mais preciso falar em inclusão, pois a inclusão pressupõe a exclusão.

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