A série Atypical e o que ela tem a nos dizer sobre os irmãos de PcDs

Poster da Série Atypical da Netflix mostrando o protagonista Sam deitado com a cabeça apoiada sobre as mãos e sua família ao lado dele também deitados, mas ao contrário de Sam, de forma que eles estão com as cabeças próximas e os pés em sentidos opostos. Eles estão deitados sobre um fundo azul claro e apenas o tronco de cada um deles é mostrado. No canto superior esquerdo está o escrito "Netflix" em vermelho e no canto inferior direito, também de vermelho, está escrito "Atypical".

No último dia 11 a Netflix lançou a primeira temporada da série Atypical. Mas só no último domingo é que tive a oportunidade de assistir os episódios. E claro que não poderia deixar de vir aqui comentar com vocês, não é mesmo?

A série traz três grandes reflexões que considero importante trabalhar aqui e por isso vamos dividir essa análise (se é que podemos chamar de análise, rs) em três textos diferentes, sendo que em cada um deles abordarei uma dessas reflexões que considerei bem pertinentes.

ALERTA DE SPOILER!

Quem ainda não assistiu e não quer spoiler, volte aqui depois de ter visto, se você já assistiu, continue lendo ou se você não viu e quer um incentivo pra assistir, continue também.

Voltando à série… O personagem central é o Sam, um jovem com TEA. Mas o foco da série não está apenas nele, mas também em todo o seu entorno. E foi aí que Atypical ganhou meu coração. Vamos às reflexões?

A primeira delas e a que trago hoje está relacionada com o que a série retrata sobre a vida de Casey, a irmã de Sam.

A série retrata muitas das questões que envolvem ser irmão de uma pessoa com deficiência. Em várias cenas e momentos isso vem à tona. Quer relembrar alguns desses momentos? Lembra da cena da corrida de Casey? Em um dia tão importante pra ela, que era a corrida que ela ia participar, a expectativa dela era bem alta, os pais foram vê-la, mas no momento exato da corrida acontece algo envolvendo o irmão que desvia a atenção dos pais e eles acabam não vendo a vitória da filha. E quem ela culpa? O irmão, claro.

Outra cena que retrata claramente essa questão é quando ela tenta contar que recebeu o convite para estudar em outra escola. Eles não prestam atenção nela pois o foco está no irmão, foi preciso o namorado da menina interferir para que os pais prestassem atenção nela e deixassem que ela contasse a novidade. E qual a reação dos pais? “Colocamos você na mesma escola que ele pra você tomar conta dele, quem fará isso?”, a prioridade é sempre ele, mesmo que ela tenha recebido uma bolsa, que na cultura norte americana tem um significado muito valioso para jovens e adolescentes e seus familiares, a mãe em um primeiro momento nega a ela a possibilidade de viver essa conquista, tudo em detrimento do irmão.

Mais pra frente em outros momentos é retratado o sentimento de culpa que Casey mesmo traz e de responsabilidade, de cogitar a ideia de recusar o convite pois ela tem que cuidar do irmão. É muito comum que irmãos de pessoas com deficiência tenham menos atenção dos pais, já que o outro filho na maioria das vezes precisa de um cuidado diferente. Mas é preciso tomar muito cuidado para que não se desenvolvam sentimentos negativos nessa criança por causa dessa diferença.

Casos de Família

Fui procurada por uma mãe dizendo que já não sabia mais o que fazer com o filho dela. Na casa são dois irmãos, o mais velho com deficiência e outro sem. O caçula passou a apresentar comportamentos bastante inadequados no ponto de vista da mãe. Como roubar dinheiro em casa, por exemplo. Conhecendo um pouco da história dessa família e da dinâmica que se passa nessa casa fica bem claro que o objetivo do menino é ter um pouco da atenção da mãe. Ele já havia tentado de diversas maneiras ganhar essa atenção, mas ao fazer isso, a mãe sentou com ele pra uma conversa só os dois, sem mais ninguém por perto, sem o irmão pra interferir. Um tempo só com ele, olhando no olho dele, no quarto dele. Era tudo o que esse menino queria, um momento apenas com a mãe, uma conversa olho no olho, não importa o motivo, não importa se ela estava dando uma bronca. Foi assim que ele conseguiu essa atenção. Percebem? Se com esse comportamento ele conseguiu isso, a tendência é que ele repita mais vezes pois foi assim que ele alcançou o objetivo: a atenção da mãe.

Acompanhei um outro caso de duas irmãs gêmeas, uma delas tem paralisia cerebral, na época estavam com 7 anos. A irmã que não tinha a deficiência começou a regredir no desenvolvimento, imitava o comportamento de um bebe, não se vestia mais sozinha, não penteava mais o próprio cabelo entre outras atividades diárias que já estavam instaladas em sua rotina. E qual era o motivo dessa mudança de comportamento? “Ah! Minha mãe não cuida mais de mim, só da minha irmã, mas eu também quero que ela cuide de mim”, foi a maneira que ela encontrou para ter atenção da mãe, se ela não colocasse a roupa dela sozinha a mãe colocaria.

Cuidado e atenção divididos por toda a família

O recado hoje vai para os pais e responsáveis que têm mais de um filho. É fato que o seu filho com deficiência pode necessitar de mais cuidados e mais atenção do que seu outro filho, mas lembre-se que você tem outro filho também e é fundamental para o desenvolvimento e formação dele enquanto ser humano que ele tenha atenção e cuidados de pessoas que sejam referência.

E cuidado para não colocar sobre os ombros desses pequenos uma responsabilidade que não é deles. É importante sim que ele tenha responsabilidades em relação ao irmão, mas o bom senso e equilíbrio são fundamentais.

Ficou curioso sobre as outras duas reflexões? Acompanhe aqui, na próxima semana voltaremos com mais um texto sobre Atypical. Já segue nossa página do Face? E nosso perfil no Instagram? Acompanhe lá, tem novidade todos os dias. Deixe seu comentário, vamos interagir!

About Lídia Lopes

Inconformada com o preconceito e com uma educação não inclusiva tenta todos os dias fazer algo para que isso seja diferente. Mais que um valor moral, tornou isso sua profissão. Apaixonada por educação e inclusão. Sonha em viajar o mundo e num mundo que não seja mais preciso falar em inclusão, pois a inclusão pressupõe a exclusão.

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